quarta-feira, 21 de julho de 2010
FLORES CARNÍVORAS II
fora de época, com demasiada água nos caules,
num bailado de pétalas desenhadas pelo vento,
no chão de poeira.
em todo este jardim de espécies exóticas,
ascende agora na orla carnuda de cactos,
uma morte intensamente perfumada.
Vou cavando até que a raiz nua,
se revele no peito.
De novo as flores me afloram à boca,
Absolutamente carnívoras.
Flores pontuando a pele como pápulas,
papoulas acidentais,
flores azuis, orquídeas nos meus campos
noctívagos.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Caderno de hesitações 03
(todos os meus haveres)
e vim viver para esta rua,
para esta cidade que não me conhece,
nem mesmo os vizinhos, emigrantes,
acondicionei tudo e empreendi a viagem,
trazendo comigo a caixa de correio,
vazia,
onde agora colocam panfletos de poesia
pop,
instruções de produtos de limpeza,
programas de turismo sénior,
aparelhos auditivos - poupar no IRS.
Fechei-me na imensidão de folhas
de Outono, julgando revertê-las
ao cerne da floresta,
que caiba inteira na rua estreita,
para onde transportei, de outro lado,
a minha própria solidão.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Caderno de hesitações 02
Those lisbon days come back to me,
on a full grey January.
Those river bed alleys, whiter than light,
the silver, salty, photographic river waters,
like sandalus and cinnamon scents,
covering gently someone’s hands,
slowly forgotten.
In "Small bok of hesitation" - 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Caderno de hesitações 01
1986. Julho
Tinha acabado de sair do seu quarto pela janela. Coloquei o capacete, uma semi-calote esférica enterrada na cabeça, ridículo como sempre tenho sido.
Dei ao pedal da motorizada, uma, duas, três vezes e ainda emerso no fumo do escape, rolei pela calçada acima, junto à Igreja Matriz. Eram
Três horas antes, tinha entrado pela porta principal, entreaberta, a medo, e ela estava à minha espera com o robe entreaberto. Beijei-a ardentemente, sentindo os mamilos contra a camisa engomada, as minhas mãos deslizavam por debaixo do robe acariciando a sua pele aveludada, enquanto ia sendo empurrado para o quarto adjacente à sala de entrada. As minhas pernas embateram na cama e de repente ela caíu comigo, espalhando os cabelos longos sobre os lençóis. Sussurrava-me dizendo que não devíamos fazer barulho, que os pais estavam num quarto um pouco mais acima. Enquanto isso, o robe acetinado caía de um dos lados da cama, como um desastre natural e sentia-lhe o hálito quente no meu pescoço, enquanto as suas pernas fortes, torneadas, me aprisionavam.
Era Julho em Portimão, fazia pouco tempo que tinha aprendido a conduzir motorizada.
in Caderno de hesitações, Ed. do autor, 2010
Rega automática
protege-me dos acentos agudos.
A direita, despida e guardada,
receio que se transforme em água,
ainda não foi urgente abri-la.
Tornou-se uma evidência que estas
mãos podiam ficar
mais longe do prolongamento
dos ouvidos.
Deixei, nessa mesma tarde,
no colo as agulhas
e os fios, espessuras e números incompatíveis.
Nunca fui capaz de ensaiar
as dobras
meticulosas na folha branca.
Um só vinco geométrico, em papel
de máquina, podia disciplinar-me
todos os gestos (mesmo os
que afinal não foram).
Se fosse hábil de tacto,
rendia-me ao origami.
in Curso intensivo de Jardinagem , Margarida Ferra, ed. &etc, Maio 2010
domingo, 11 de julho de 2010
festivais de verão
uma camisola como destino, abandona os sapatos,
os próprios pés se conseguires
e faz-te à estrada, até que o pó te revele,
abandona os livros, a casa, a própria família
sai, sai por uma porta de som com árvores dentro
sai, embora a distorsão do mundo te incomode
sai, enquanto os pássaros ruidosos voam.
bebe todas as cores dos holofotes, um a um
até que os olhos adormeçam, num rio de sombra,
bebe até que não te sintas, bebe-te.
os festivais são indiferentes, regressam no ano que vem
enquanto tu permaneces envolto em pó.