Todos querem uma casa,
um abrigo onde aquecer
os ossos, alguns compartimentos,
água corrente e um computador
que nos prenda ao resto do mundo,
em noites frias.
E eu, que ao entrar em casa,
é como regressar ao cárcere,
entro ordeiramente como
um condenado.
A minha casa é um livro de capa dura,
que me acompanha nos dias
mais chuvosos, com janelas macias,
de palavras macias,
cobertas de lágrimas de uma chuva
copiosa e persistente.
Nesta casa serei feliz.
Mas afinal estou aqui, só,
o livro entreaberto, de janelas batendo
na madeira do tempo,
e eu chuvoso e frio, como um qualquer
inverno, puxo o sobretudo sobre
as orelhas e vagueio, como sempre
tenho feito, à procura de abrigo.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Tokyo em Lisboa
0:30 de sábado. Depois da corrida vertiginosa, o táxi deteve-se no Cais do Sodré. Descemos ao cais como lobos famintos de ritmo. O corpo possuído por todos os impulsos eléctricos da noite. As garras prestes a florir. As quatro raparigas ondulavam na sala de dança do “Tokyo Bar” como borboletas. O espaço, de paredes nuas, quase lúgubres, ficou algures suspenso dos anos oitenta do século passado. O fumo insufla-se na roupa, na pele, no suor que o ritmo segrega: Electricity, OMD; Girls on film, Duran Duran; I Ran (so far away), Flock of Seagulls; Start me up, Rolling Stones; Video killed the radio star, The Buggles; ecoavam na sala como se de uma única banda sonora se tratasse. Uma bola de espelhos rodopiava no tecto, caleidoscópica, os dançarinos de cervejas na mão, todo um universo de som e côr, como num sonho. O alcool ia desaguando na margem do rio em mais uma inevitável madrugadaFacebook | Paulo Correia
Blogged with the Flock Browser
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
RECOMEÇOS
O círculo aberto, cratera de peito,
como cicatriz volta a fechar-se,
os teus olhos nos meus,
transportam uma possibilidade,
talvez um inconsequente brilho de lua,
em agosto,
quem sabe?
quem saberá?
quando em setembro te vir,
pela primeira vez,
que é, como concebo, o começo,
e as águas se alongarem em versos,
sem fundo ou leito conhecido,
arrastando essa possibilidade
na erosão dos dias imperfeitos,
uma possibilidade arrastada
de tronco aberto no peito,
e mãos sobre as mãos
e dedos rumorejantes.
Paulo da Ponte, Novembro 2010
como cicatriz volta a fechar-se,
os teus olhos nos meus,
transportam uma possibilidade,
talvez um inconsequente brilho de lua,
em agosto,
quem sabe?
quem saberá?
quando em setembro te vir,
pela primeira vez,
que é, como concebo, o começo,
e as águas se alongarem em versos,
sem fundo ou leito conhecido,
arrastando essa possibilidade
na erosão dos dias imperfeitos,
uma possibilidade arrastada
de tronco aberto no peito,
e mãos sobre as mãos
e dedos rumorejantes.
Paulo da Ponte, Novembro 2010
PAINKILLER
Encontraste a tua posição zen.
Como um prolongamento de ti que
Te esticava as pernas alvas e macias
Pregadas como um sacrilégio.
Encontraste a tua posição zen.
Como um prolongamento de ti,
Os metais disfarçados de macios lençóis
Alongavam-te as pernas alvas e picantes
Como um sacrilégio que imitava o
Sudário. Blasfemaram-te roubando-te a imagem.
Pernas juntas de sexo na minha cabeça afastadas.
Os joelhos perturbantes a adivinharem
Os teus ossos sensíveis de menino magoado.
Dores? O teu corpo e a tua face repousam num
Opaco grito de luxúria e divertimento.
O encarnado doloroso dança à tua frente enquanto
Eu te como os braços com beijos e com os olhos e
Te afago a cabeça e pouso o meu
Corpo nas tuas pernas no meu consciente
Ultrajante e sujo...
Dores? Sim, dores. Imortalizo-te.
Tu não mereces o que te faço.
O azul celeste da tua alma e a palidez
Da tua pele imaculada de mártir
Consomem-se em comprimidos.
Eu queria dar-tos todos, sim todos.
A senhora da farmácia não deixou e chamou-me
Louca viciada. Quis pregar-me ao laboratório.
Apertei-lhe o pescoço. Quis que
Ela me suplicasse para parar.
Que maravilhoso meu anjo, muitos eu trouxe...
Todos para ti, para se
Dissolverem e evaporarem nos teus
Poros puros, penetrantes e
Pacíficos, posicionados para eu te ver melhor
Para ti, para ti...
Põe, põe, põe. Isso...assim,
Mais fundo, até as cores
Se misturarem. Estados Unidos?
Esquece Nova Iorque e a pobre da rua.
Eu queria ter levado tudo até
Ao fim
E ter feito tudo o que tu quisesses,
Para não teres de escrever as agulhas.
Lindo, que magnífico...eu mereço chicotes
E grilhões por me observares suja e
Empalada castrando-te os
Sonhos e não te matando a dor
Raios vermelhos em pentagonal sina
Me furem as fontes com a sabedoria
Ancestral para eu morrer e
Vitalizar-te.
Eu quero tudo de novo para voltar atrás
E teres o que queres e merecias porque
Eu fui feita, criada e concebida
Para ti, por ti. Finalizarei a minha tarefa
Quando te me e me te der.
Dores? Enterrra-me mais e mais
Fundo, mais celestial, mais infernal,
Mais divinal.
São muitos, toma-os e passa-me
A máquina alongadora de infinito. Vou deitar-me
A teu lado, amor. Levanta-te que as
Minhas pernas ficaram presas aqui.
Sofia Santos
in "Actéon nº 1" - Revista de Expressão pessoal e artística - Jan/Fev 2008, vários autores.
Como um prolongamento de ti que
Te esticava as pernas alvas e macias
Pregadas como um sacrilégio.
Encontraste a tua posição zen.
Como um prolongamento de ti,
Os metais disfarçados de macios lençóis
Alongavam-te as pernas alvas e picantes
Como um sacrilégio que imitava o
Sudário. Blasfemaram-te roubando-te a imagem.
Pernas juntas de sexo na minha cabeça afastadas.
Os joelhos perturbantes a adivinharem
Os teus ossos sensíveis de menino magoado.
Dores? O teu corpo e a tua face repousam num
Opaco grito de luxúria e divertimento.
O encarnado doloroso dança à tua frente enquanto
Eu te como os braços com beijos e com os olhos e
Te afago a cabeça e pouso o meu
Corpo nas tuas pernas no meu consciente
Ultrajante e sujo...
Dores? Sim, dores. Imortalizo-te.
Tu não mereces o que te faço.
O azul celeste da tua alma e a palidez
Da tua pele imaculada de mártir
Consomem-se em comprimidos.
Eu queria dar-tos todos, sim todos.
A senhora da farmácia não deixou e chamou-me
Louca viciada. Quis pregar-me ao laboratório.
Apertei-lhe o pescoço. Quis que
Ela me suplicasse para parar.
Que maravilhoso meu anjo, muitos eu trouxe...
Todos para ti, para se
Dissolverem e evaporarem nos teus
Poros puros, penetrantes e
Pacíficos, posicionados para eu te ver melhor
Para ti, para ti...
Põe, põe, põe. Isso...assim,
Mais fundo, até as cores
Se misturarem. Estados Unidos?
Esquece Nova Iorque e a pobre da rua.
Eu queria ter levado tudo até
Ao fim
E ter feito tudo o que tu quisesses,
Para não teres de escrever as agulhas.
Lindo, que magnífico...eu mereço chicotes
E grilhões por me observares suja e
Empalada castrando-te os
Sonhos e não te matando a dor
Raios vermelhos em pentagonal sina
Me furem as fontes com a sabedoria
Ancestral para eu morrer e
Vitalizar-te.
Eu quero tudo de novo para voltar atrás
E teres o que queres e merecias porque
Eu fui feita, criada e concebida
Para ti, por ti. Finalizarei a minha tarefa
Quando te me e me te der.
Dores? Enterrra-me mais e mais
Fundo, mais celestial, mais infernal,
Mais divinal.
São muitos, toma-os e passa-me
A máquina alongadora de infinito. Vou deitar-me
A teu lado, amor. Levanta-te que as
Minhas pernas ficaram presas aqui.
Sofia Santos
in "Actéon nº 1" - Revista de Expressão pessoal e artística - Jan/Fev 2008, vários autores.
Etiquetas:
Actéon,
dia da poesia
domingo, 17 de outubro de 2010
(...)
Dias a fio sem uma palavra, o silêncio imperioso dos corpos,
quando a pele se toca na pele, como um mapa de viagem
toca a manhã e se desprende uma aurora boreal,
o silêncio mortal das neves eternas, dos fiordes,
das savanas, as quilhas dos navios cruzando oceanos,
a tua pele de encontro à minha, ainda como estranhos,
somos estranhos íntimos de viagem, tacteando rotas
inseguras, somos o nascer do sol e o barco perdido,
a montanha de chumbo tecendo os dias frios nas fissuras
dos dedos, somos lençóis abandonados até que a noite regresse
para nos cobrir demoradamente de beijos.
quando a pele se toca na pele, como um mapa de viagem
toca a manhã e se desprende uma aurora boreal,
o silêncio mortal das neves eternas, dos fiordes,
das savanas, as quilhas dos navios cruzando oceanos,
a tua pele de encontro à minha, ainda como estranhos,
somos estranhos íntimos de viagem, tacteando rotas
inseguras, somos o nascer do sol e o barco perdido,
a montanha de chumbo tecendo os dias frios nas fissuras
dos dedos, somos lençóis abandonados até que a noite regresse
para nos cobrir demoradamente de beijos.
Etiquetas:
Poema quase de inverno
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Outonal
Passeamos outono adentro como as árvores despidas,
ganha-se um tom de pele, viaja-se, só bilhete de ida,
tu olhas o ar, eu olho o mar, adereços inúteis presos
no horizonte, páginas escritas palavras em surdina,
sem mapa nem rumo certo como a rota dos pássaros,
estamos à deriva, como dantes, num grave acidente.
ganha-se um tom de pele, viaja-se, só bilhete de ida,
tu olhas o ar, eu olho o mar, adereços inúteis presos
no horizonte, páginas escritas palavras em surdina,
sem mapa nem rumo certo como a rota dos pássaros,
estamos à deriva, como dantes, num grave acidente.
AS BALAS
São de ferro. Ou de aço?
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaica) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. 'da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e "agora choro contigo"
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.
Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século.
in "A Musa Irregular", Fernando Assis Pacheco, ed. Assírio&Alvim, Novembro de 2006
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaica) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. 'da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e "agora choro contigo"
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.
Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século.
in "A Musa Irregular", Fernando Assis Pacheco, ed. Assírio&Alvim, Novembro de 2006
Etiquetas:
Fernando Assis Pacheco
Subscrever:
Mensagens (Atom)