Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Fernando Pessoa
Estou aqui deitado
num lençol de areia,
quando de repente
alguém me beija:
é o sol que me beija
a face, por entre
os teus lábios de luz.
Consolação, Ago. 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
(...)
É um retrato anguloso o que vou de ti pintando,
se as águas que turvam o olhar mo permitirem:
a maré
todo em estrutura óssea,
em altivez arqueada de galeão,
fundeada no lodo espesso do arade,
entrevendo o forte de são joão.
Pintura como esta só existe na minha cabeça,
ou aí se revelou como teus braços,
ramos fortes de figueira brava,
e o que sinto é uma incapacidade,
talvez incompetência,
de desenhar os teus contornos ósseos,
alvos, quase frágeis,
na robustez maternal de dois braços,
de árvore bem real.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Poema-bala
um momento antes de atingir a loucura,
imediatamente antes dela, límpida,
como uma bala negra: poesia bala,
como a fala, a voz e durante ela,
a loucura, quero eu lá saber
qual o momento exacto do disparo
na nuca, como estrofe em agonia,
caro leitor, que estais com o revólver
apontado à página, o olhar atento,
reduzindo aceleradamente o tempo
a pó,
a cabeça no pó dos livros,
importa-me lá que aí estejas, planeando
o diâmetro do orifício,
enquanto termino mais um verso
na mortalha do tempo,
amanhã regressarei com mais
uma caixa de projécteis,
espero reencontrar-te morto:
como eu.
imediatamente antes dela, límpida,
como uma bala negra: poesia bala,
como a fala, a voz e durante ela,
a loucura, quero eu lá saber
qual o momento exacto do disparo
na nuca, como estrofe em agonia,
caro leitor, que estais com o revólver
apontado à página, o olhar atento,
reduzindo aceleradamente o tempo
a pó,
a cabeça no pó dos livros,
importa-me lá que aí estejas, planeando
o diâmetro do orifício,
enquanto termino mais um verso
na mortalha do tempo,
amanhã regressarei com mais
uma caixa de projécteis,
espero reencontrar-te morto:
como eu.
Ontem
aqui estou, rochedo nu,
escrevendo poemas
Ontem bati de frente,
escorrendo mar
debaixo das engrenagens
retorcidas,
ficaram-me dois euros no bolso
e pequenas folhas de papel,
imaculadamente brancas
com filamentos rubros
na margem,
neles estavam as tuas mãos
pousadas, ensaiando um rabisco
de ar.
Regressei quando não queria,
eu nunca me quero,
e agora existem
trezentos e cinquenta quilómetros,
por (te) escrever.
escrevendo poemas
Ontem bati de frente,
escorrendo mar
debaixo das engrenagens
retorcidas,
ficaram-me dois euros no bolso
e pequenas folhas de papel,
imaculadamente brancas
com filamentos rubros
na margem,
neles estavam as tuas mãos
pousadas, ensaiando um rabisco
de ar.
Regressei quando não queria,
eu nunca me quero,
e agora existem
trezentos e cinquenta quilómetros,
por (te) escrever.
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Viagens imaginárias
Um poema de amor
todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes maneiras de amar e
falar e exigir.
as suas orelhas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
-maridos.
a maioria
das mulheres é muito
quente e lembram-me torradas
com manteiga enquanto a manteiga
se derrete
no meio.
há um certo olhar no
olhar delas: elas já foram
possuídas elas já foram
enganadas. na realidade não sei o que
fazer por
elas.
sou
uma boa picha um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das diferentes
camas
fumar cigarros
olhar para os
tectos. não era possessivo nem
injusto. Somente
um estudante.
eu sei que todas têm
pezinhos e vão descalças pelo chão enquanto
lhes vejo os tímidos cus no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.
algumas dão-me laranjas e vitaminas;
outras falam baixinho da
infância dos pais e das
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é sem qualquer
motivo; algumas amam
bem, outras nem por
isso; a melhor na cama nem sempre é
a melhor noutras
situações; cada uma tem o seu limite como eu
tenho os meus limites e todos
aprendemos isso
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
tapetes e
fotografias e
cortinados, é
parecido como uma igreja
só que às vezes ouvem-se
risos.
as orelhas os
braços os
cotovelos os olhos
que procuram, a ternura e
a espera eu fiquei
preso eu fiquei
preso.
versão de manuel a. domingos in Blog: O amor é um cão do inferno
todos os seus beijos as
diferentes maneiras de amar e
falar e exigir.
as suas orelhas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
-maridos.
a maioria
das mulheres é muito
quente e lembram-me torradas
com manteiga enquanto a manteiga
se derrete
no meio.
há um certo olhar no
olhar delas: elas já foram
possuídas elas já foram
enganadas. na realidade não sei o que
fazer por
elas.
sou
uma boa picha um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das diferentes
camas
fumar cigarros
olhar para os
tectos. não era possessivo nem
injusto. Somente
um estudante.
eu sei que todas têm
pezinhos e vão descalças pelo chão enquanto
lhes vejo os tímidos cus no
escuro. sei que gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.
algumas dão-me laranjas e vitaminas;
outras falam baixinho da
infância dos pais e das
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é sem qualquer
motivo; algumas amam
bem, outras nem por
isso; a melhor na cama nem sempre é
a melhor noutras
situações; cada uma tem o seu limite como eu
tenho os meus limites e todos
aprendemos isso
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
tapetes e
fotografias e
cortinados, é
parecido como uma igreja
só que às vezes ouvem-se
risos.
as orelhas os
braços os
cotovelos os olhos
que procuram, a ternura e
a espera eu fiquei
preso eu fiquei
preso.
versão de manuel a. domingos in Blog: O amor é um cão do inferno
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Poemas de amor
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Anti-poema
Um grito embora vago
um som embora surdo
o vento embora frio
a noite embora bréu
o sexo embora breve
a vida embora morte
a pele embora carne
três marinheiros
monóculos
o ilhéu de luz
apagado
anti-poema
alado.
um som embora surdo
o vento embora frio
a noite embora bréu
o sexo embora breve
a vida embora morte
a pele embora carne
três marinheiros
monóculos
o ilhéu de luz
apagado
anti-poema
alado.
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poemas de verão
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Poeira e música
Os festivais de verão vão a meio,
sudoeste incluído,
no talão de multibanco
escrevo um poema sem saldo,
aparentemente vazio,
alguns dígitos rememoram
a grafia distante de versos,
as gotas daquele inverno,
obliquamente impressas no papel:
a transferência foi efectuada
com sucesso.
sudoeste incluído,
no talão de multibanco
escrevo um poema sem saldo,
aparentemente vazio,
alguns dígitos rememoram
a grafia distante de versos,
as gotas daquele inverno,
obliquamente impressas no papel:
a transferência foi efectuada
com sucesso.
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