quarta-feira, 28 de abril de 2010
Poema de infância
Meto a mão na algibeira
procurando uma gota de sangue,
colada aos dedos,
pequena gota da memória
ainda ontem o golpe sarou
persistindo no fluxo
do sangue quieto, que nos trouxe
cabelos grisalhos à fronte.
Essa minúscula gota doce
suspensa no espaço
duma cor rubra e quente
gardei-a na luva amputada
procurando uma gota de sangue,
colada aos dedos,
pequena gota da memória
ainda ontem o golpe sarou
persistindo no fluxo
do sangue quieto, que nos trouxe
cabelos grisalhos à fronte.
Essa minúscula gota doce
suspensa no espaço
duma cor rubra e quente
gardei-a na luva amputada
segunda-feira, 26 de abril de 2010
ALGUÉM OLHARÁ POR TI
Quando te perdes no cruzamento da inocência,
mais uma vítima certeira da poesia
e cambaleias na dor do corpo violentado,
quando os versos como aranhas aflorarem
à garganta em teias de suor,
um ar áspero arranhando os pulmões,
nesse preciso momento saberás
que tudo foi em vão:
Esmagado por um peso estranho,
embora as legendas continuem
a passar no écrã,
não sentes o chão.
sábado, 17 de abril de 2010
ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO
O rio - eram quatro da madrugada
irrequieto, entrou-me na cama
sonhei-o com forças brutais
trazia sementes misturadas
e uma guarda de escada
que me entrou no quintal
por baixo da cama um ralo
a água em espiral
acordei já no céu
Deus com a túnica enlameada.
irrequieto, entrou-me na cama
sonhei-o com forças brutais
trazia sementes misturadas
e uma guarda de escada
que me entrou no quintal
por baixo da cama um ralo
a água em espiral
acordei já no céu
Deus com a túnica enlameada.
ONTEM
Ontem dei por mim escavando
nas franjas do tapete
o corpo dobrado de caule
anteontem cesceu-me
uma pequena árvore
no peito,
florando mãos e braços
há uma semana que me cresce
uma semente no ventre
e regurgito folhas trilobadas
darwinismo congénito - penso
nas franjas do tapete
o corpo dobrado de caule
anteontem cesceu-me
uma pequena árvore
no peito,
florando mãos e braços
há uma semana que me cresce
uma semente no ventre
e regurgito folhas trilobadas
darwinismo congénito - penso
LUXURY
cabeça ovalada,
verbo de sangue
fluente
uma acácia
no centro da sala
com tampo de chuva
água, transbordante água
água desamparada
caindo na dor da calçada
um nome: ana
duas mãos, ama
envolve a nuvem
uma arma dispara
ondas de espuma
oceano descendo o céu
verbo de sangue
fluente
uma acácia
no centro da sala
com tampo de chuva
água, transbordante água
água desamparada
caindo na dor da calçada
um nome: ana
duas mãos, ama
envolve a nuvem
uma arma dispara
ondas de espuma
oceano descendo o céu
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