sábado, 26 de junho de 2010

7ª Sinfonia - Sergei Prokofiev

(...)

11 de março
definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado, morre-se com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado. morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos. morre-se de vez em quando, sem que se conheça exactamente a razão, morre-se sempre sozinho.
nunca fui um homem alegre, morro todos os dias, como poderia estar alegre?
sento-me e medito na busca de novas palavras. tornou-se quase inútil escrevê-las; chega-me saber que, por vezes, as encontro, e nesses momentos readquiro a certeza dalguma imortalidade.

in O medo, Al Berto, Assírio & Alvim, 2005

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Na representação da noite

eu, tu e o outro em vasos comunicantes,
corpos líquidos gesticulando,
flowing free, na prateleira existem
livros estacionados em segunda fila
à beira do extermínio
livros transgressores, transgredindo
o corpo nu da palavra

tu e o outro abandonaram
este texto quase desistência
de intertextualidade

prefiro pensar que a pista de asfalto
surge velozmente por detrás
da vírgula, provocando-me
o acidente da linguagem

a escrita imprime o sulco das tuas
nas minhas mãos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Artigos de férias - Clarinet Concert (Aaron Copland)



a vida
livros com páginas amarrotadas
a bomba pra inalar
o ar
a cadeira de praia
bola de praia
carregar a areia
um peso absurdo na mala do carro
toalhas e mochila, saco-cama
ingresso na quinta dos carriços
a cabeça (não esquecer)
a piscina insuflável
a mesa de cabeceira
música para clarinete.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Goldberg variations - J. S. Bach

(na impossibilidade feminina da tarde)

as mulheres que não toco com os dedos,
que não ouso tocar
as mulheres impossíveis
seres esbeltos como gazelas
no deserto da minha tarde

as mulheres que imaginadas,
vejo à distância de um olhar
são mais reais para outros
só para mim um rasto de impossibilidade

é nesse intangível que transporto no peito
que as mulheres são mais belas
a impossibilidade doirada das suas mãos
mergulha neste meu templo-espelho
onde as observo e quase as posso tocar