terça-feira, 11 de maio de 2010

(...)

Quando escavas, perdes a noção do tempo
curvado sobre ti, sobre o teu silêncio
cada vez a escavação é mais profunda
e vão surgindo brilhos,
as unhas preenchidas de terra
e vermes enxutos
de uma secura planetária.
Com a ponta da navalha extrais a terra
incrustada nas unhas e julgas
inevitável a cicatriz do ar

redondo verso de cicuta
árido e alvo
na espessura da morte
quando o poço transborda
na queimadura da água

sábado, 8 de maio de 2010

NEAL AND JACK AND ME




Neal and Jack and Me

I'm wheels, I am moving wheels
I am a 1952 studebaker coupe
I'm wheels, I am moving wheels moving wheels
I am a 1952 starlite coupe...
En route.....les Souterrains
Des visions du Cody...Sartori a Paris...
Strange spaghetti in this solemn city...
There's a postcard we're all seen before...
Past wild-haired teens in dark clothing
With hands-full of autographed napkins we
eat apples in vans with sandwiches ... rush
Into the lobby life of hurry up and wait
Hurry up and wait for all the odd-shaped keys
Which lead to new soap and envelopes...
Hotel room homesickness on a fresh blue bed
And the longest-ever phone call home.....no
Sleep no sleep no sleep no sleep and no mad
Video machine to eat time... a cityscene
I can't explain, the Seine alone at 4am
The Seine alone at 4a.m....Neal and Jack and me
Absent lovers, absent lovers...


"Beat", in "Beat", King Crimson, 1982

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Carla

Tributo às Fábulas incompletas e ao seu autor José Luís

sempre desejei escrever um soneto simples com letras de água
catorze versos alinhados da forma habitual numa folha branca
em que as palavras mais não fossem que ondas desalinhadas
e as frases pudessem evocar as imagens náuticas que em mim


se repetem todas as noites. deitado ao teu lado não adormeço
sem içar uma âncora, mesmo quando sei que sonhas um mar
por nós nunca dantes navegado. ouço a tua respiração suave
e sei que em ti se aporta a ilhas encantadas, em ti não morre


nunca a promessa do aroma da canela. se te navegasse podia
descobrir que afinal não estou preso a um cais e libertar-me
das amarras de sal nos meus pulsos de marinheiro que sinto


ao olhar a mansidão do teu corpo feito caravela ancorada a nós:
por que razão continuamos encalhados nesta maresia só nossa
se sabemos ambos que a maré apenas sobe quando a noite desce?


in blogue Fábulas incompletas Aqui

quarta-feira, 5 de maio de 2010